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Luís Augusto Fischer

É professor de literatura brasileira na UFRGS, doutor em Nélson Rodrigues, escritor, cronista e jornalista nas horas vagas. Autor de vários livros de crônicas, ensaios e contos, com destaque para o já clássico Dicionário de Porto-Alegrês e a premiada novela Quatro Negros.

E-mail: fischer@saraueletrico.com.br


Dez motivos para blogar

   Eu ando trabalhando muito e sem tempo nem para pensar; mas fui ver os blogues das gurias e pirei. Como tá bom! Então, mesmo sem formular nada de novo, vai aqui um troço que recebi estes dias. Legalzinho.

 

Dez motivos para blogar
 
1. Você pode (quase) tudo. Quando faltar inspiração, escreva uma lista de dez motivos para fazer alguma coisa. No final, acabará se divertindo.
 
2. É bom ter audiência, mesmo sem fazer idéia de quem são os leitores. Você apenas precisa aprender a lidar com essa relação meio íntima com leitores tão anônimos.
 
3. Com o tempo você percebe que sobrevive sem comentários. Segundo as estatísticas, apenas 1% dos leitores deixa um. Então pare de implorar pelos comentários dos amigos.
 
4. Blogar ajuda a organizar as idéias, exercitar a escrita e você ainda corre o risco de escrever algo realmente bom.
 
5. Amigos distantes, ou distanciados, se sentem próximos ao ler o seu blog. Você não precisa de orkut para se relacionar, e só se expõe se, e o quanto, quiser.
 
6. Você está deixando um registro histórico, da sua vida ou da sua época, embora isso pareça uma grande pretensão agora.
 
7. O fato de blog não dar dinheiro não é motivo para parar. Pense bem: você realmente não começou porque havia essa possibilidade.
 
8. Provavelmente você terá mais leitores do que se publicar um livro.
 
9. Você pode terminar uma lista de dez com nove itens e nenhum editor vai chamar a sua atenção.
 
Marta Barcellos, no <Espuminha de leite>

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 30/01/2009 - 11:35

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É NATAL, BIMBALHAM OS SINOS

   Véspera de Natal, eu indo tirar uns dias à beira-mar, fico aqui pensando na maravilha que é o natal para a criançada. A que ganha brinquedo, claro, como o meu guri, que ontem, numa festa antecipada de uma das famílias (vamos passar a noite de 24 com a outra), ganhou uns troços e ficou numa felicidade que desbordava dele. É um caminhãozão, capaz de carregar areia na beira de praia, num daqueles exercícios infindos e maravilhosamente inúteis de criança; é um boné dos "ótiuíus", manja?, "hot wheels"; é um novo trenzinho da coleção do Thomas e seus amigos. Por essas e outras é que eu sempre me lembro do Paulo Francis, que numa época, quando ele ainda não tinha virado um débil mental reacionário que imitava um senhor de escravos -- coisa que ele nunca foi, porque era descendente de gente alemoa trabalhadora, que eu manjo como é --, numa certa época, repito, costava de citar o Scott Fitzgerald: "Ser adulto é viver num estado de compreendida e moderada infelicidade". E é mesmo. Com criança por perto, atenua a coisa, claro, porque a gente pega carona no gosto deles e relembra aquilo tudo. Aquilo tudo que eu desejo para os amigos do Sarau. Até a volta.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 22/12/2008 - 17:51

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GRANDE CONCURSO MUNDIAL!

   Com exclamação no título e tudo!

   Venham todos, venham ver, o filho de dona Pata, que acaba de nascer!

   (Desculpa aí: a linha aí de cima não tem nada a fazer aqui: é um verso do imortal "Patinho Feio", personagem com o qual eu me identificava muito, quando piá, e cujo texto eu ainda sei quase de cor, mas aos pedaços, retornando à cabeça nos momentos menos esperáveis.)

   O negócio é o seguinte: um concurso que não dá prêmio, mas em compensação não incomoda o cara com o constrangimento de fazer discurso ao vencer.

   O concurso: escrever uma memória de uma cena passada em cinema, num cinema, numa sala de cinema, qualquer que seja. Pode até ser nos atuais cinemas de shopping, mas de preferência numa sala das antigas, cinema de calçada. Tem que tentar ser o mais preciso possível: o filme, a época, o ano, os personagens, o que rolou. Se for constrangedor, não precisa contar tuuuuudo; para isso estão aí a elipse e a entrelinha.

   Venham todos / Venham ler / O relato sobre o cinema / Que ainda vai se escrever!


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 18/12/2008 - 09:54

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O MEU ROSÁRIO

   Por nenhum motivo realmente relevante, eu andei hoje à procura de imagens do falecido Cine Rosário, que ficava na Benjamim Constant, a uns cem metros da casa em que ainda vivem meus pais e onde eu vivi dos 8 aos 22, quer dizer, onde vivi meu aprendizado da cidade. E dei de cara com informações impressionantes: ele foi fundado em 1928 (e funcionou até 1980 -- eu saí da vizinhança dele, ou de seus escombros, em 1981). Por muitos anos eu fui amigo de uns guris que eram filhos do gerente do cinema, que vivia com a família numa espécie de apartamento nos fundos do dito. Entrava-se pelo lado, percorria-se um corredor, e, deixando à direita a casinhola que era o banheiro masculino (subia-se uns degraus? tinha janela sem vidro para o corredor?), chegava-se a uma porta, que abria para um pátio interno, muito mais portenho do que porto-alegrense, que era já os domínios da família do Seu... Seu Álvaro, se não me engano. Um dos filhos dele era apelidado de Alemão, dito Alemão do Cinema, porque havia na vizinhança outro, dito Alemão do Moinho, eis que seu pai era gerente do moinho de soja, ainda hoje existente ali na Augusto Severo, conhecida como Rua dos Cachorros pelos mais velhos. (Quanta coisa me voltou, bá.)

   O Rosário tinha 1180 lugares, conforme esclarece um belo site, http://www.carlosadib.com.br/poa_fatos.html, que tem tudo sobre cinema em Porto Alegre. E eu conheci todos eles, porque -- memória, tu és a mãe da minha vida --  eu varria o cinema com o Alemão e outros guris da zona, depois das sessões duplas dominicais do Rosarião. Varria porque era amigo do pessoal e porque o Seu Álvaro pagava essa varrição com a entrada livre no domingo seguinte. Creio que ele me deixaria entrar de graça sempre, porque eu era de casa, mas eu gostava da coisa. Entre outros motivos porque era para nós um frege, naqueles anos entre os 10 e os 13, e também porque sempre se corria o risco de encontrar, no meio dos infinitos papéis de bala que enchiam o assoalho, alguma coisa de valor, quem sabe uma bala intacta, quem sabe um gibi que escapou da pilha, quando o dono saiu para negociar no intervalo entre os dois filmes. Tudo isso.

   Vai uma foto do velho Rosarião de guerra, como lembrança daquele mundo.

   .


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 16/12/2008 - 20:32

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O TROÇO BOMBANDO E EU NEM AÍ?

   Nada como confiar nas mulheres. Nas mulheres certas, quero dizer. Ninguém vai me ler aqui, mas vai que uma alma perdida apareça e não tenha tido ainda a clareza de ler os blogues da Kátia e da Cláudia... O prezado leitor foi ali, não foi? Pois faça como aconselha o Dorival Caymmi sobre a Bahia: então vá. Essas mulheres maravilhosas, com seu humor matador e sua malemolência. Se alguém ainda não tinha entendido por que eu gosto tanto do Sarau, aí estão dois dos  principais motivos: Kátia De Suman e Cláudia De Tajes. Tenho dito.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 16/12/2008 - 11:20

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NOVE ANOS ESTA NOITE

 

            Começos de 1999, eu vou na rádio Ipanema dar uma entrevista para a Kátia Suman, que comandava as tardes da programação e era já uma figuraça, uma grande interlocutora do mundo cultural na cidade, particularmente no mundo rock, mas também no pop, no literário, no teatral, etc. Eu estava terminando de redigir meu Dicionário de porto-alegrês, que sairia na Feira daquele ano, em novembro, mas que em parte estava exposto numa publicação aperiódica chamada não, ou melhor, nao-til, o senhor manja? Uma beleza de revista internética.
            Aconteceu que no número de março de 99, editado pelo Carlos Gerbase, saiu a letra A do meu dicionário, que ainda se chamava (era o meu título predileto, mas caiu na hora h) Dicionário impreciso de porto-alegrês. Pode conferir, que ainda está na rede: http://www.nao-til.com.br/nao-61/capa61.htm. Saiu lá, a Kátia leu e me convidou para um papo, que acabou durando um tempão, talvez uma hora, entremeada de rock’n’roll e comerciais. Falamos sobre a cidade, sobre a nossa fala, e literatura, rock, um monte de coisas, como amigos que ainda não éramos mas já éramos, pela proximidade cultural que, fomos ver, era também afetiva. E foi ali que ela me sondou: eu toparia uma jogada (voz da Kátia dizendo: “A jogada é a seguinte”) de ler uns textos, num bar, de noite, ela, eu e o Frank Jorge? Sei lá, uma coisa meio sarau antigo. Sim? Sim, claro. Ainda não estava certo o bar (talvez o Zappa, talvez o Ocidente), mas seríamos nós três e um convidado, mais uma canja musical ao fim.
            Entre isso, em abril, e o primeiro sarau mesmo, rolou um tempo. Mas na primeira semana de julho de 1999 estávamos lá, os três, com o convidado Ricardo Silvestrin e canja do B. Bossa Trio. Nossas três únicas combinações: teríamos um tema central (o primeiro foi hai-kai), a função começaria às 21 e 30 e teria uma hora de duração, não mais. Principalmente pra não enjoar, pensava eu, que propus essa regra, e pra deixar um gosto de coisa boa que se suspende mas volta na semana que vem.
            Em seguida entrou em cena o Cláudio Moreno, professor como eu, e mais que eu, com uma coluna grega imortal de tão boa, de vez em quando recheada com umas passadas pelas Mil e uma noites, noutras vezes dedicada a um achado nessa selva milagrosa que é a internet. O Frank acabou deixando de ser fixo (mas sempre em nosso coração) e aí entrou a Cláudia Tajes, por sinal Maria Cláudia, a primeira gremista da nossa pequena trupe, um talento sensacional para a queridice e para a sacanagem — literária, claro.
            E eis-nos aqui, ali, no Ocidente, completando nove anos hoje de noite. Querendo compartilhar a festa, aparece lá, meu caro leitor, hoje ou noutra terça qualquer. Nosso lema bem que podia ser como o de uma antiga tendência trotskista baiana (!) dos anos 70: “Enquanto tiver bambu, vai flecha”.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 08/07/2008 - 12:07

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QUAL É O MELHOR: MACHADO OU ROSA?

 

            Tudo isso e mais pode ser dito dessas duas figuras maiúsculas da cultura de nossa língua. E ocorreu que duas semanas atrás a Folha de São Paulo promoveu uma enquete perguntando quem era o maior escritor dos dois. Difícil dizer? Claro. Mas eu topei a pergunta e respondi o que vai se ler abaixo.
 
1. O maior entre os dois é Machado de Assis, considerando duas variáveis associadamente — uma: obra de primeiro plano em matéria de invenção, num manejo extraordinário do repertório do gênero (no caso dele, dois gêneros, romance e conto, senão três, o ensaio de tipo inglês, ou a crônica, numa denominação brasileira, menos forte), o que o torna um artista-crítico, con hífen, isto é, um artista moderno; e duas: obra com capacidade representar e pensar a experiência de seu tempo (o século 19) e seu lugar (o Brasil, a periferia americana do Ocidente) com grande profundidade e extensão. Guimarães Rosa, com sua maravilhosa criação, também inventiva e representativa de seu lugar, representa pouco de seu tempo — em sua obra, o que está em causa é o que restou depois do furacão da modernização industrial.
 
            A segunda pergunta era qual a obra mais importante do autor que eu considerava maior. A resposta:
 
2. Isoladamente, as Memórias póstumas de Brás Cubas, porque são um marco da virada em direção à maturidade do autor, abrindo caminho para outras grandes realizações e superando por dentro os limites anteriores; porque mantêm sua vivacidade, sua capacidade de provocação ao leitor para muito além de seu tempo, permanecendo como texto forte; e porque são fruto de uma negociação complexa entre a experiência imediata, da vida do autor e da vida brasileira em sentido amplo, e a tradição do gênero romance, num procedimento que emancipa o debate local e liberta o autor (e o leitor) das constrições nacionalistas sem perder de vista a tarefa ontológica do romance enquanto tal, isto é, enquanto forma de relato da experiência da vida moderna ali onde ela acontece, neste caso o Rio de Janeiro.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 02/07/2008 - 17:53

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MACHADO DE ASSIS, GUIMARÃES ROSA

 

            Este ano, por uma dessas coincidências que podem parecer cheias de significação mas que são apenas coincidências mesmo, comemoramos o centenário de morte de Joaquim Maria Machado de Assis e o centenário de nascimento de João Guimarães Rosa. O primeiro nasceu e viveu no Rio de Janeiro, entre 1839 e 1908; o segundo, nascido e criado numa pequena cidade na borda do sertão mineiro, veio a ser diplomata e por isso correu mundo, entre 1908 e 1967.
            Os contrastes são tantos que nem caberiam num pequeno texto: Machado nunca viajou além de uns 200 quilômetros de sua cidade (foi a Petrópolis, a Vassouras e a Barbacena, não mais), enquanto Guimarães Rosa serviu na Europa e na América do Sul, além de ter migrado de Cordisbugo para Belo Horizonte e de lá para o Rio de Janeiro. Machado era um clássico, de temperamento e de forma, dedicando-se sempre aos temas de sua cidade, uma das mais importantes do mundo já em seu tempo, ao passo que Rosa foi um paradoxo, porque mexia com os temas referentes ao mundo rural primitivo mas com uma forma a que não faltou um toque radical de vanguardismo.
            Machado escreveu quase de tudo: crônica, crítica, poesia, conto, novela e romance, teatro, além de haver feito tradução; Rosa concentrou-se em conto, novela e romance, tendo porém um livro de poesia, que ele mesmo nunca quis publicar mas que depois de morrer veio à luz, por obra de seus herdeiros. Machado nasceu pobre e não teve filhos de seu único casamento; Rosa, de família de relativas posses, casou duas vezes e teve duas filhas de sangue, além de tratar com netas duas crianças que de sangue eram netas de sua segunda esposa, Araci.
            Enquanto Machado, que nunca estudou regularmente além de duas ou três séries, escreveu e publicou desde os 15 anos, numa vida que alcançou quase os setenta, Rosa, que se formou em Medicina, só veio a publicar já bem maduro, com 38 anos, quando saiu seu primeiro livro, Sagarana. Machado aprendeu francês sabe-se lá como (há uma hipótese de que tenha sido com um padeiro francês que ele conheceu em menino), depois inglês (que aperfeiçoou com sua esposa, Carolina); Rosa era poliglota mesmo, dominava uma enorme variedade de línguas, alcançando coisas exóticas, de que parece que nasceu parte de sua criatividade.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 02/07/2008 - 17:52

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PARA O FRANK JORGE

       Uns anos atrás, quando o Frank Jorge lançou um dos livros dele, ele gentilmente me pediu para escrever umas palavras. Acabou que elas foram usadas, mas o editor não botou lá o meu nome, como autor dos elogios ao texto do bom amigo e ótimo escritor e artista. Resolvi então, como ele vai ser o convidado do Sarau desta semana, botar aqui aquele texto, para brindar mais uma vez com ele.

 

            É um músico que virou escritor? É um cronista de costumes que arremeda canções da Jovem Guarda? É um revolucionário gaudério, de boina basca e terno? É um punk fora de hora e tirando sarro?
            É tudo isso e um pouco mais: é o Frank Jorge – músico do fenecido Graforréia Xilarmônica, dos Cowboys Espirituais, professor de música para inocentes nas artes melódicas, guri formado em Letras, cronista da vida da cidade, leitor do Bukowski e de suspeitíssimos manuais de boas maneiras apócrifos e ordinários, de Machado de Assis e de Carlos Nobre, de Luis Fernando Verissimo e de colunas mundanas de jornal linha B.
            Frank Jorge vai de tudo. Seu texto compõe, com alegres e improváveis analogias e aproximações, personagens estranhíssimos, que a gente vai ver de perto e constata, meio sem graça, que são a nossa cara. Sarcasmo, sacanagem, certa melancolia e agudeza crítica vão de mãos dadas para examinar o que for, exposição de gado, bar da moda, vida de top-model, sucessos futebolísticos, carro do ano, campanha política e gente da noite bonfinesca.
            O leitor que experimente pra ver. Se não pegar na primeira, volte ao início, imagine uma voz irônica lendo estas linhas de grande e contagiante graça, e faz que nem o metaleiro, cujo cérebro pega no tranco. E aproveita a crocância das palavras.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 01/07/2008 - 11:36

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O GAUCHISMO CONTRA SÃO JOÃO?

 

            Esta semana que termina conteve o dia de São João, o dia 24 de junho. Pessoalmente tenho boas razões para saber disso: eu estudei a maior parte da minha formação básica no Colégio São João, que fica ao lado da Igreja São João, onde eu fui coroinha, tudo isso dentro do bairro São João, onde eu morei até os 20 e alguns anos. A data, portanto, está cravada em mim como — diria Nelson Rodrigues, em uma de suas eloqüentes comparações — sapo de macumba.
            Na minha meninice, pelo menos até os primeiros anos 70, fazer festa de São João era coisa da nossa intimidade. Havia fogueira no colégio, na SOGIPA, que era o meu clube e que é vizinha de muro com o colégio, e em várias ruas, entre as quais, pelo menos durante alguns anos, a minha mesmo. A fogueira do colégio era quase profissional, grande, num pátio de areião que havia (e onde hoje está um moderno ginásio de esportes); a da SOGIPA era obra dos escoteiros, organização de que eu mesmo fiz parte por um breve e marcante tempo, dos 11 aos 13 anos; e a da minha rua alguma vez aconteceu no leito da rua mesmo: alguém mais velho arrancou um paralelepípedo do calçamento e ali cravou um poste alto, o poste-guia para a fogueira, que foi grande, com pneus, galhos de árvore, restos de construção e sabe-se lá mais o quê. O fogo inicial foi ateado com gasolina, um galão jogado sobre aquilo tudo, mais um fósforo, e era isso. A minha rua tinha um certo movimento, de forma que não foi sempre que tal aconteceu; mas em ruas vizinhas esse método de arrancar a pedra para fincar o poste era comum.
            (O senhor ainda diz “prender fogo”? Eu digo, de vez em quando. É um uso antigo e em vias de extinção. Eu cantava aquela musiquinha infantil do “Marcha, soldado” com a seguinte letra, na segunda parte: “O quartel prendeu fogo / Francisco deu sinal / Acuda, acuda, acuda / a Bandeira nacional”. Esses dias constatei que não se canta mais assim: virou “O quartel pegou fogo”. Prender, nesse sentido de iniciar o fogo, é coisa do espanhol e do português antigo, que aqui no estado havia permanecido, mas que parece estar em vias de ir-se embora.)
            Eis que passa o tempo e as fogueiras parecem não ser mais uma prática comum. Certo, tudo ficou mais perigoso neste mundo de massas humanas, que a qualquer momento podem estourar e sair dos metafóricos trilhos, e por isso mesmo me parece mais seguro que não se acenda, não se prenda fogo à toa. Mas quer parecer que houve também uma outra interferência nessa mudança, que julgo ter entendido agora, só agora. Vi em manchete de jornais esses dias um espanto assim: “São João na terra dos gaúchos”. A manchete insinuava que era um paradoxo haver a festividade para o velho santo católico em território gaúcho. Mas, pergunto eu, por quê? Onde é que está o problema?
            Parece que a cúpula e os órgãos todos do movimento tradicionalista desrecomendam, se é que não proíbem mesmo em seus arraiais, a festa de São João, porque a tendência seria a de associar tal data com festa caipira, com bigode pintado a rolha queimada (hoje em dia deve ser com alguma coisa mais sofisticada e industrial), roupa remendada com retalho xadrez, chapéu de palha desfiado, tudo isso e mais casamento na roça; e parece que o tradicionalismo não gosta de ver a encenação caipira, pretendendo que só teria cabimento algo que ligasse diretamente à indumentária e à história gaúcha.
            Se é verdade isso, é mais um pequeno escândalo. Desde quando seria necessário vestir-se à gaúcha (num padrão que é recente, como todo mundo sabe mas o tradicionalismo muitas vezes quer esconder, já que a bombacha é vestimenta que só apareceu por aqui nas últimas décadas do século 19, quando o Rio Grande já existia há tempos, e até a imigração alemã já era cinqüentenária)? E por que não podemos nos irmanar simbolicamente aos caipiras, de que somos também herdeiros, quando menos porque tudo isso tem raízes portuguesas que alcançam o sul também?
            Se for isso mesmo, vai daqui um inútil protesto meu contra essa proibição, ou restrição, que seja. Assim como me parece cabível que se faça Oktoberfest ou uma semana de identidades italianas e polonesas e afrobrasileiras, também cabe São João caipira, ao lado das coisas gauchescas. É o que tenho a dizer, nem que seja para defender a memória daquelas lindas fogueiras do passado.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 26/06/2008 - 14:27

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METZ, RAMIL, ALABARSE

 

            Brincando, brincando, já são 12 invernos desde a morte do Luiz Sérgio Metz, vulgo Jacaré, um brilhante talento do texto que morreu deixando obra interessante, que prometia muito mais ainda. Seu Assim na terra, que só teve uma edição — e não foi por falta de batalha deste leitor aqui —, ganha ressonâncias novas, com o passar do tempo. Agora mesmo, em função de um estudo que está sendo feito sobre sua obra, andei relendo longos trechos do livro e continuei achando que sua qualidade é superior. Pouco lida, a obra do velho e bom Jacaré tem a vizinhança estranha de outros livros de grande inventividade e ótima fatura que não ganharam lugar na estante dos clássicos, como deviam.
            Em outra parte desse mesmo mapa anda a obra do Vitor Ramil escritor. Sua primeira novela, Pequod, foi editada duas vezes e recebeu alguma leitura, mas também menos do que merece. Agora, para sua alegria e para justiça cósmica, vem à luz sua segunda narrativa longa, Satolep, com edição luxuosa da Cosacnaify. Já tinha lido o texto em uma versão anterior, e agora o releio com deleite, para constatar que também na literatura Vitor é um artista exigente, consigo e com o público, não concedendo facilidades que poderiam talvez levá-lo a um prestígio mais imediato, mas é também um artista recompensador, oferecendo uma larga paga pelo empenho com que seus admiradores freqüentam sua obra.
            Metz e Ramil, como outros artistas do estado (daria pra lembrar gente diferente e igualmente talentosa como Nelson Coelho de Castro, Cláudio Levitan, Paulo Ribeiro ou Arthur de Faria), em parte dependem do inverno, para existirem e serem apreciados. Com eles não tem como a gente estar à beira da praia com 30º; é preciso haver nem que seja uma simulação de fogo aceso, e o melhor é que a temperatura não exceda os 18ºC. Vinho acompanha melhor que cerveja.
            Essa companhia toda só faz crescer o valor do trabalho de outro artista invernal, Luciano Alabarse, que vem de mais uma façanha agora, com seu Édipo montado como teatrão, produção de grande nível, elenco ótimo, direção certeira e, para gosto de quem assiste mas nem se dá conta, maturidade intelectual em cada milímetro da concepção e da encenação. Nem gostei tanto da trilha sonora, com os Rolling Stones, que abre uma dissonância estética abismal entre si e aquele mundo representado ali; mas isso não é o principal. O que importa mesmo é haver por perto um encenador como ele, igualmente dinâmico, ousado e maduro.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 23/06/2008 - 12:50

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AINDA PARA CRIAR LEITORES

5. Uma dimensão importante da conversa implica saber que a crise gerada pela sombra do vestibular ocorre principalmente entre adolescentes. Ora, a adolescência é um fenômeno da natureza e da vida social e deve ser encarada com clareza e discernimento, em particular no que se refere à leitura. Se é mais difícil a concentração do jovem para ler, isso não significa que seja impossível. Bons livros e livros importantes podem ser lidos com auxílio de atividades escolares movimentadas, como montagem de pequenas peças teatrais para a turma, debates em aula, etc. O mercado brasileiro de nossos tempos está maduro e oferece alternativas para todos os gostos, a começar pelos livros que podem servir de passo inicial para o leitor mais refratário.

 
6. Mas o vestibular tal como existe, ele é inevitável como a chegada da adolescência? Bem, ele não é inevitável, mas, nas condições atuais, não parece que ele vá mudar muito: vai continuar com poucas universidades sendo disputadas por dezenas de milhares de candidatos, com provas muito sofisticadas (mas não tendentes a formar leitores), e uma massa de outras universidades e centros universitários oferecendo vagas em profusão, com provas que não precisam ser objetivas ou sintéticas, ao contrário do caso anterior. Vale lembrar que não foi o vestibular unificado que inventou esse modelo ruim de ensino de literatura, porque de fato havia limitações antes dele, de ordem conceitual (cuja discussão não cabe aqui); mas é certo que esse vestibular agravou tudo. Esse diagnóstico não resolve o problema, mas ajuda a entender e talvez permita sugerir que há espaço para manobra e mesmo para mudanças significativas no modelo de provas de literatura.
 
7. As universidades em geral não têm sabido oferecer momentos de formação para os leitores potenciais que são os alunos universitários. Em tese eles deveriam ser leitores, em qualquer especialidade em que estejam mergulhados, mas na realidade poucos são os que sobrevivem àquele acachapante ensino médio, em que foram adestrados para ser respondedores de perguntas de vestibular, não leitores. Pois bem: a vida universitária precisa assumir essa tarefa de proporcionar bibliotecas com bom acervo, ambientes de leitura, cursos de leitura, sessões de palestras e conversas relativas à leitura dos clássicos, como forma de recuperar o tempo perdido. (Se estou metendo uma lenha, o faço em grande parte como autocrítica, porque sou professor universitário.)
 
8. “A leitura é uma extensão da imaginação”, disse Jorge Luis Borges, numa frase de grande poder de síntese e muito útil para o nosso caso. Imaginação é o conceito-chave para sair das limitações impostas pelo vestibular a todo o sistema escolar, que não precisa aceitar essas fronteiras estreitas. Nem a escola, nem a sociedade: pais leitores, professores leitores, agentes públicos leitores, certamente ajudam a mostrar a importância da leitura, pelo exemplo; grupos de leitura fora da escola, nos espaços públicos (círculos de pais e mestres, clubes sociais, teatros, sindicatos, bibliotecas mais que tudo), que simplesmente ofereçam a oportunidade para o cidadão chegar ali, abrir um livro e acompanhar a leitura ilustrada por algum leitor mais experiente, só isso já ajudaria enormemente.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 12/06/2008 - 16:27

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PARA CRIAR LEITORES

            A experiência tem grande valor quando se sabe olhar para ela e fazer as perguntas que valem a pena; quando não, ela é apenas tempo transcorrido, sem maior serventia. Tendo eu quase trinta anos de sala de aula, no Ensino Médio e na Universidade, venho pensando muito e tentando encontrar as perguntas adequadas para fazer valer esse tempo, essas horas de vôo, esse largo patrimônio de contato com a inteligência dos alunos e, no meu caso específico, com os livros, com a literatura, que é o meu negócio.

            Esta semana me sinto motivado a tentar mais uma vez as perguntas, em função da divulgação de uma interessante pesquisa do IBOPE que mediu a leitura no Brasil. Os resultados são animadores: muito mais gente está lendo, num momento de grande maturidade do mercado de livros no país — e isso é totalmente claro: nunca se produziu tanto livro no Brasil, nunca se traduziu tanto, nunca circulou tanto. Como quase sempre acontece, o mercado tem influência decisiva no fenômeno, neste caso para o bem.
 
            Bem de quem? Dos leitores, que é quem interessa em primeiro lugar, mais do que os autores e os profissionais do livro (editores, revisores, distribuidores, livreiros, gráficos, etc.), ainda que esses todos sejam indispensáveis. Estamos num daqueles momentos que os economistas chamam de “círculo virtuoso”: mais gente lendo, mais demanda por livros, mais produção, mais leitura, etc.
 
            Então estamos numa boa hora para avançar na conversa sobre formar leitores. Vai aqui um conjunto de palpites sobre o caso, em forma de pequenas teses.
 
1. Ler é acima de tudo ler a grande ficção de todos os tempos (romance, poesia, conto, drama), e também ler o melhor patrimônio culto de qualquer gênero escrito (ensaio, crítica, história, sociologia, filosofia, etc.). Ler, em sentido mais amplo, é também fazer qualquer leitura, a mais cotidiana (como o jornal, as revistas, etc.) e mesmo a mais banal (os paulocoelhos, os livros banais de ficção, os gibis, etc.). Mas para ser leitor maduro é preciso conhecer e freqüentar o melhor que a humanidade já produziu, ao longo do tempo.
 
2. Ler é ler sem medo — o leitor ideal é aquele que não se assusta com nenhum livro: pega-o nas mãos, avalia-o e avalia suas condições e interesses pessoais de leitura; conforme o caso, segue a leitura ou rejeita-a. O leitor ideal, assim, é aquele sujeito que não foge dos livros. E para não fugir é preciso ter experimentado, de preferência na escola, todos os gêneros de leitura, dos mais simples aos mais complexos. Só essa experiência é que permite esse desejado desassombro, essa coragem de abrir os exemplares na biblioteca, na feira, na livraria, e escolher o que mais interessa.
 
3. Ler é ter vida interior, levada no ritmo que convém a cada indivíduo. Eis aqui uma das principais virtudes do livro, especialmente da grande tradição da literatura: quem lê manda no ritmo de sua exploração do texto, porque pode ir e voltar, pode espiar o fim antes de chegar lá, pode retornar para esclarecer a leitura ou para reviver uma passagem intensa. Essa virtude que o livro tem, de permitir que cada indivíduo faça seu ritmo (ao contrário da televisão, que obriga todos ao mesmo andamento) se alia a outra: a virtude de adensar a vida mental, psicológica, filosófica do leitor (ao contrário de grande parte dos videogames, que costumam ter um andamento frenético que impede a reflexão e mesmo o prazer da descoberta).
 
4. A realidade do ensino de leitura mostra um quadro estranho, que precisa ser pensado: regra geral, até a 4ª ou 5ª série do Ensino Fundamental os alunos costumam gostar de ler; depois disso, especialmente nos anos do Ensino Médio, parece que eles perdem o gosto. Por quê? A resposta tem dois caminhos paralelos: de um lado, porque chega a adolescência, e com ela uma nova fase da vida, mais complexa, em que os indivíduos são mais sujeitos a outros estímulos e buscam outros prazeres, em prejuízo da leitura, que é uma ocupação e uma diversão relativamente lenta, de certa forma inadequada para os jovens que, de natureza, são apressados; de outro, por causa do vestibular, do jeito como ele existe. Desde 1970, o vestibular de provas objetivas é o que vigora nos vestibulares competitivos, que por sua vez mandam no panorama da formação do alunado colegial: as escolas organizam os programas de ensino em função deles. Tal vestibular empobrece enormemente a literatura, porque a rebaixa a uma série de conteúdos informativos, quando o que ela tem de mais interessante são os aspectos sutis, objetivos e subjetivos, que carrega e proporciona. E rebaixa, por tabela, a formação do leitor, porque as escolas, no Ensino Médio mas também na segunda etapa do Fundamental, tendem a deixar de lado a leitura como aprendizado, como discussão do mundo, como fruição, como educação do gosto, para organizarem o programa e as práticas de leitura pelo repertório e a lógica do vestibular, que são restritos e emburrecedores.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 12/06/2008 - 16:26

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Machado e Borges

Eu, com um ciúme sem conta do blog da Maria Cláudia, que estampou a capa da edição italiana de seu belo romance,  ponho aqui o projeto quase final de capa do meu próximo livro, uma coletânea de ensaios sobre Machado de Assis. O  primeiro aproxima dois gênios do continente, Machado e Jorge Luis Borges; o primeiro é o melhor do Brasil, e o segundo é o maior escritor gaúcho de todos os tempos, se me permitem a ousadia geográfica. O autógrafo vai ser dia 25 de junho, na Cultura, tipo às 19 horas.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 03/06/2008 - 14:35

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Um Fernando Pessoa legítimo

Gente amiga,

faz uma data que eu não apareço por aqui, o que é uma vergonha. Reentro do espaço cibernético cumprindo tardiamente uma promessa, a de botar na roda o mais lindo poema do mundo, pelo menos hoje: é um do Fernando Pessoa, ele mesmo. Dá uma olhada e me fala se não é. Um esclarecimento: a palavra "amavio" quer dizer feitiço. Boa viagem, nas asas do Pessoa.

 

AH, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um vôo de ave
E me entristeço!

Por que é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Por que vai sob o céu aberto
Sem um desvio?

Por que ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade

Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh'alma alheia

Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do vôo suave
Dentro em meu ser.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 02/06/2008 - 17:37

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MANUAL DE REDAÇÃO E ESTILO

 

1. Desnecessário faz-se empregar estilo de escrita demasiadamente rebuscado, conforme deve ser do conhecimento de V. Sa. Outrossim, tal prática advém de esmero excessivo que beira o exibicionismo narcisístico.
2. Evite abrev., etc.
3. Anule aliterações altamente abusivas.
4. "não esqueça das maiúsculas", como já dizia carlos machado, meu professor lá no colégio santa ifigênia, em salvador, bahia.
5. Evite lugares-comuns como "o diabo foge da cruz".
6. O uso de parênteses (mesmo quando for relevante) é desnecessário.
7. Estrangeirismos estão out, palavras de origem portuguesa estão in.
8. Seja seletivo no emprego de gíria, bicho, mesmo que sejam maneiras. Sacou, galera?
9. Palavras de baixo calão podem transformar seu texto numa merda...
10. Nunca generalize: generalizar sempre é um erro.
11. Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar repetitiva. A repetição vai fazer com que a palavra seja repetida.
12. Não abuse das citações. Como costuma dizer meu pai: "Quem cita os outros não têm idéias próprias".
13. Frases incompletas podem causar.
14. Nao seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez. Em outras palavras, não fique repetindo a mesma idéia.
15. Seja mais ou menos específico.
16. Frases com apenas uma palavra? Corta!
17. A voz passiva deve ser evitada.
18. Use a pontuação corretamente o ponto e a vírgula especialmente será que
ninguém sabe mais usar o sinal de interrogação
19. Quem precisa de perguntas retóricas?
20. Nunca use siglas desconhecidas, conforme recomenda a A.G.O.P.
21. Exagerar é 100 bilhões de vezes pior do que a moderação.
22. Evite mesóclises. Repita comigo: "mesóclises: evitá-las-ei!"
23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.
24. Não abuse das exclamações! Seu texto fica horrível! Sério!
25. Evite frases exageradamente longas, por dificultarem a compreensão da idéia contida nelas, e, concomitantemente, por conterem mais de uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçando, desta forma, o pobre leitor a separá-la em seus componentes diversos, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.
26. Cuidado com a orthographia, para nao estrupar a língua.
27. Seja incisivo e coerente. Ou talvez seja melhor não..."

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 08/03/2008 - 11:14

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SITE QUE VALE A PENA

 

            Para contrabalançar a feiúra e a burrice da vida (de parte da vida, claro), vai uma sugestão para visitar um site inteligente, de um artista que é mais que um poeta, porque consegue fazer animações com desenhos, fotos e filmes, em harmonia com poesia escrita propriamente dita. Um poeta da internet, enfim. O responsável é o Jorge Bucksdricker, e eu já queria ter falado dele aqui há tempos. Não perca: http://www.ferramentaserrantes.com. Depois me conta se não é tri.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 31/01/2008 - 16:29

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RENOVAR A CARTEIRA

 

 
            Caiu pra mim, como cai para todo mundo um dia, a vez de proceder à renovação da carteira de motorista. Um sinal dos tempos, dos meus tempos, é que agora, depois dos 50, a coisa é de 5 em 5 anos, e não de 10 em 10, como foi até agora. Pena, porque vai me obrigar e pensar nisso mais repetidamente. Gente como eu, que dirige porque precisa e não porque tem particular prazer, acaba naturalizando a coisa: na prática, eu nem penso em nada a respeito de dirigir, apenas dirijo. Do carro eu lembro porque é preciso botar gasolina, encher os pneus (menos vezes do que seria adequado), trocar óleo, essas coisas.
            Vou eu lá, numa auto-escola, para os trâmites. Já as primeiras impressões dão um tom geral da coisa, porque tem burocracia inútil, mesmo sendo um serviço privado. Por exemplo: vai-se lá para entregar cópias de documentos (que comprove moradia; para quê serve mesmo eles saberem que eu moro naquele endereço?), para fazer o exame de olhos, além de para pagar, naturalmente, e precisa-se voltar lá noutro dia só para pegar um papel com o qual ir no local do exame. Podia ter optado por um curso de três turnos, mas a perspectiva de ficar 12 horas sentado diante de alguém me falando sobre trânsito já me deixou aterrorizado. Não deve haver assunto para tanta fala, sinceramente. Uma conferência ou duas, vá lá, mas 12 horas é um insulto.          
            Tem também o aspecto obsoleto de precisar levar duas fotos 3 por 4. Sinceramente, eu acreditava que não existisse mais isso, no estágio da era digital que habitamos, quando em tudo que é canto há um computador que faz a foto e já imprime tudo junto. Não na carteira de motorista — que aliás eles querem que eu passe a chamar de “condutor”, como se a língua real da comunicação funcionasse por decreto da burocracia. A burocracia é autoritária, burra e pretensiosa, sempre.
            Aí vem a prova, dias depois. Esperei talvez uma hora e tanto, que só não foi horrível porque eu tinha um bom livro para ler (mas eu era, entre umas cem pessoas, o único com livro, ao lado de uns dez com jornais). Preciso dizer ao meu leitor que eu elaboro provas para vestibulares e concursos há mais de vinte anos, de forma que manjo do riscado: eu sei como se fazem questões inteligentes, questões só para aborrecer, questões que realmente medem conhecimento e questões que apenas assustam o candidato. E posso afirmar, ainda que não possa comprovar (porque eles não fornecem cópia da prova, que eu fiz direto num computador), que a prova é quase totalmente imbecil. Para ser mais ameno: das 30 questões, umas dez são ok, perguntando coisas realmente com intenção de averiguar o quanto eu sei sobre legislação e tal, por exemplo onde encostar meu carro numa rodovia quando há um acidente, como entrar à esquerda em rodovia com apenas duas pistas, etc. Mas outras, sinceramente, só chiando dá pra agüentar.
            Não fiz uma conta precisa, mas umas 5 ou 6 eram sobre... primeiros socorros. Sim. Eles queriam saber se eu sei, com detalhes, com que cor e com que freqüência cardíaca fica uma pessoa em estado de choque (havia duas perguntas sobre o tema, na minha prova). Pode um troço desses? Havia também acho que 4 ou 5 sobre poluição, por exemplo uma que perguntava o que eu não deveria fazer, caso quisesse contribuir para diminuir a poluição causada por automóveis — e a resposta certa era que eu não deveria comprar sempre a gasolina mais barata.
            Passei, o que me consola um pouco. Mas a coisa toda é um horror, além de ser uma perda de tempo, um desperdício de dinheiro e de oportunidade.
 

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 31/01/2008 - 16:27

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TRADUÇÃO, FOTOGRAFIA E KAFKA

 

            Tenho a sorte de conviver com uma companheira inteligente e sensível, além de boa mãe e esposa (o leitor vai achar que eu estou aqui fazendo um elogio desmedido, mas não é), que além de tudo é tradutora. Agora mesmo ela está traduzindo uma biografia do grande Henri Cartier-Bresson, talvez o mais importante fotógrafo do mundo em seu tempo.

            Um trabalho de tradução tem firulas, matizes, delicadezas, mas sempre tem a novidade agradável de lidar com o texto que está sendo vertido de modo o mais íntimo possível: quem traduz precisa penetrar na alma do escritor, para entender coisas que ele pensa e que muitas vezes nem aparecem no texto final que ele publica. Quem traduz precisa como que reviver o processo de escritura, que, como todo mundo sabe, deixa de fora do resultado final uma parte substantiva do que foi pensado e mesmo do que foi escrito — e é nesse lixo, deixado de parte pelo escritor quando deu por finalizado seu texto, que muitas vezes o tradutor tem que remexer, para encontrar um elo que permita trazer para a língua de chegada a alma daquilo que o escritor inventou.

            Convivência íntima, então, é o que o tradutor inteligente tem com o texto que está traduzindo. E é por isso que o tradutor sensível vai deparar com fragmentos de percepção, com itens dispersos de inteligência e sensibilidade, que podem valer ouro, para seu trabalho mesmo ou para a simples fruição da leitura em plenitude — o tradutor, quando inteligente e sensível, talvez seja o leitor mais íntimo que qualquer escritor pode ter.
            Tudo isso eu lembro aqui porque a Julia, minha companheira, deparou nessa tradução atual com uma pérola. O autor do texto esstá contando que Cartier-Bresson viu nascerem as cabines de fotos instantâneas, que no Brasil nem pegaram tanto mas chegaram a existir. Sabe qual é, prezado leitor? O cara paga, bota a moeda no lugar certo, senta diante de uma lente e ele próprio dispara o dispositivo da foto; em seguida, vai para o lado de fora da cabine e recolhe as cópias de fotos feitas, por assim dizer, pelo próprio fotografado. Era um troço de utilidade, antes da nova onda de automação, que por exemplo permite que as carteiras de identidade sejam agora montadas com fotos feitas pelo próprio expedidor da carteira, ao contrário de antes, em que cada um de nós precisava levar uma penca de fotos 3 por 4, mais isso e aquilo, para poder ganhar a carteirinha do clube, do sindicato ou do que fosse.
            Nesse contexto de contar do nascimento das cabines de fotos instantâneas, que fizeram um enorme sucesso na Europa toda, a começar de Paris, onde estavam por toda parte a começar dos anos 1920, o biógrafo conta que Franz Kafka, o sensacional escritor tcheco (de língua alemã), nascido e criado em Praga, teve uma reação peculiar. “Quando da instalação dessas cabines em Praga, Franz Kafka as rebatizara de Desconhece-te a ti mesmo, pois estava convencido de que a fotografia ocultava a natureza secreta das coisas...” — diz o texto.
            A frase que Kafka retomou negativamente, com um delicado e melancólico humor, tem origem em Delfos, o templo a que recorriam os gregos para obter vaticínios, profecias, interpretações, pela boca do oráculo, um sábio (que, pelo que andaram pesquisando esses tempos, era sábio por sabedoria acumulada mesmo mas também porque respirava um gás ligeiramente tóxico que saía de uma fenda na rocha onde ele permanecia, quando exercia seu metiê). Segundo Sócrates, o filósofo que iniciou a filosofia racionalista ocidental, a frase Conhece-te a ti mesmo estava escrita na entrada do templo de Delfos, e ele a tomou como uma palavra de ordem, que repetiu para seus alunos vida afora.
            Kafka enlaça essa idéia pelo lado da recusa: a modernidade da foto (da autofoto) instantânua, para ele, contribuía para o sujeito perder contato com sua verdade, com aquela verdade íntima que pode libertar o indivíduo (não é demais pensar que Freud, contemporâneo de Kafka e judeu alemão como ele, é socrático, porque a psicanálise também funciona na base dessa consigna do Conhece-te a ti mesmo). Para o amargo sábio Kafka, a autofoto instantânea, dando a impressão de que revela o fotografado, faz bem o contrário, porque lhe dá apenas a aparência, o aspecto externo, o menos importante para quem realmente quer conhecer-se, e obscurece o que mais importa, aquilo que se revela pelo esforço recomendado por Sócrates.
            Não custa acrescentar que Cartier-Bresson fez com sua arte uma fotografia reveladora, que permite ao espectador conhecer de um ângulo todo novo e sempre marcante o assunto abordado.
 

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 17/01/2008 - 10:31

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CRIANÇAS GRITAM
            Agora eu tenho um filho pequeno, um ano e quase três meses, e estou experimentando as delícias e as dificuldades de conviver com gente assim nova tão de perto. Já convivi com sobrinhas, agora adolescentes, mas só vim a ter um filho aos quase 49 anos de idade — eu, que sempre me imaginei tendo filhos, desde jovem, só entrei nessa tardiamente, o que implica igualmente maravilhas e limites.
            As maravilhas: tenho muito mais paciência do que teria vinte anos atrás, com toda a certeza. Até os 40, pelo menos, eu estava correndo para fazer minha vida, estudando, lendo, dando inúmeras aulas; agora tudo isso continua, mas eu sei com mais clareza onde eu posso transigir, onde eu devo insistir, particularmente a respeito da minha carreira e da minha vida individual. Os limites: não tenho como evitar pensar que vai ser difícil eu e meu filho entrarmos juntos numa quadra de vôlei para bater bola a sério; quando ele já souber jogar, lá pelos 14 ou 15, eu já terei muito menos força do que tenho agora, e menos agilidade, e menos presteza — e com essa imagem boleira ficam sugeridas todas as outras limitações de tempo que estão envolvidas na nossa história comum.
            O Benjamim é um guri razoável em vários temas, e muitas vezes é francamente sorridente, simpático, charmoso mesmo (permitida a corujice), em grande parte pela mãe amorosa, alegre, inteligente e autonomista que ele tem, e em parte, possivelmente, pela minha paciência maior. Isso sem contar com o temperamento dele mesmo, claro, que é dos bons (por exemplo: é daqueles nenês que dorme na boa, desde recém-nascido). Mas de vez em quando ele entesa e grita, como quando está com fome, ou quando é contrariado em algo que no momento seja imprescindível para ele. Como qualquer criança, de resto.
            O Benjamim começa a gritar e eu imediatamente, antes de pensar em atender o desejo dele, digo: “Sem grito”. Tento fazê-lo perceber que eu vou fazer o que ele pede, se for razoável, mas prefiro que ele não grite. Claro, ele não fala ainda, mal tenteia alguma palavras, e o que já entende talvez não seja suficiente para avaliar tudo isso que me passa pela cabeça; por outro lado, é bom não subestimar os nenês, porque crianças entendem melhor que adultos as expressões cifradas, os entreditos, as tensões que pairam no ar, tudo isso que pode compor sentido contextual fortemente.
            Não gosto de barulho, em geral, e de gritos em particular; prefiro que a coisa seja dita de modo civilizado, discreto. Também odeio a idéia de aborrecer os outros, que não têm nada a ver com o tema. “Low profile”, como se dizia um tempo atrás. Acabei de me lembrar de uma cena de filme, creio que o Bar esperança, dirigido pelo Hugo Carvana, um daqueles filmes feitos para celebrar a vida da Zona Sul do Rio de Janeiro. A certa altura, um amigo testemunha, dentro do bar (onde se passa a maior parte do enredo), a briga de um casal de amigos; este amigo, desempenhado por aquele Nelson Dantas, grande ator já falecido, é o supra-sumo da discrição, e diz para o casal briguento uma coisa assim: “Briga, puteia, esfaqueia, mas não dá escândalo”. É bem como me sinto.
            Bem nessas horas me voltam cenas da minha infância. Meu pai sempre foi assim, e ainda é. Em nossos anos de formação, meus irmãos e eu várias vezes ouvimos um par específico de perguntas (só pronunciadas quando ele estava de bom humor, o que era freqüente, mas não eterno), que nos deixavam sem graça, obrigados a fazer uma rápida autocrítica. As perguntas: “Se tens razão, por que gritas? E se não tens, por que gritas?”
            Era uma indagação que era um brete: de fato, se tínhamos razão não era necessário gritar, porque, ao menos naquele ambiente governado por compreensão e diálogo, como a nossa casa, na maior parte das vezes, a circunstância de ter razão se imporia por assim dizer ao natural; se porém não tínhamos razão, era inútil gritar, porque estava suposto que ninguém ganhava no grito, literalmente.
            Ok, é preciso admitir que crianças muitas vezes ganham no grito, e não vou ser eu aqui a ficar dando conselhos de que se deve resistir ou que não se deve resistir a eles — isso fica com quem é do ramo, quem estuda o tema ou quem tem muito mais experiência que eu, que mal agora estreei como pai. A única coisa que me fez escrever isso aqui foi, quem sabe, lembrar com carinho as cenas em que o pai nos dizia as duas perguntas, sorrindo, nessa hora de passagem de ano, quando eu estou envolvido em tentar dizer (e viver) cenas assim calorosas com o meu pequeno.
            Bom ano novo para ti, leitor; se for com criança por perto, bom ano com algum grito.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 27/12/2007 - 10:34

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EUFEMISMOS MODERNOS

Colaboração que me mandou o Juarez Fonseca, que é um freqüentador da rede e descobre pérolas de vez em quando. Aqui é frases corretas para uso na firma, em lugar de dizer as verdades reais.

No lugar de: NEM FODENDO!
Usar: Não tenho certeza se vai ser possível.
 
No lugar de: TÔ CAGANDO E ANDANDO
Usar: Não vejo razão para preocupações.
 
No lugar de: MAS QUE PORRA EU TENHO A VER COM ESTA
MERDA?
Usar: Inicialmente, eu não estava envolvido nesse projeto.
 
No lugar de: CARALHO!
Usar: Interessante, hein?
 
No lugar de: FODA-SE. NÃO VAI DAR NEM A PAU.
Usar: Há razões de ordem técnica que impossibilitam a concretização da tarefa.
 
No lugar de: PUTA MERDA, VIADO NENHUM ME FALA NADA!
Usar: Precisamos melhorar a comunicação interna.
 
No lugar de: E NA BUNDINHA, NÃO VAI NADA?
Usar: Talvez eu possa trabalhar até mais tarde.
 
No lugar de: O CARA É UM BOSTA.
Usar:Ele não está familiarizado com o problema.
 
No lugar de: VÁ PRA PUTA QUE O PARIU.
Usar: Desculpe...
 
No lugar de: VÁ PRA PUTA QUE O PARIU, SEU VIADO.
Usar: Desculpe, senhor.
 
No lugar de: BANDOS DE FILHOS DA PUTA!
Usar: A Matriz não ficou satisfeita com o resultado do trabalho.
 
No lugar de: FODA-SE! SE VIRA!
Usar: Infelizmente, não posso ajudar.

No lugar de: PUTA TRABALHINHO DE CORNO.
Usar: Adoro desafios.
 
No lugar de: AH, DEU PRO CHEFE?
Usar: Finalmente reconheceram sua competência.
 
No lugar de: ENFIA ESSA MERDA NO CU.
Usar: Está muito bom, mas, por favor, refaça esta parte do trabalho.
 
No lugar de: AH, SE EU PEGO O FILHO DA PUTA QUE FEZ ISSO.
Usar: Precisamos reforçar nosso programa de treinamento.
 
No lugar de: ESTA MERDA TÁ INDO PRO BURACO.>
Usar: Os índices de produtividade da empresa estão apresentando uma queda sensível.
 
No lugar de: AGORA FUDEU DE VEZ.
Usar: Esse projeto não vai gerar o retorno previsto.
 
No lugar de: EU SABIA QUE IA DAR MERDA.
Usar: Desculpe, eu poderia ter avisado, se fosse consultado.

No lugar de: OH CACETE! VAI SAIR CAGADA DE NOVO.
Usar: Apesar do esforço, teremos outra não conformidade

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 19/12/2007 - 11:17

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O ESSENCIAL DE CLARICE

 

            Os clarissófilos religiosos preferem Água viva (1973), entre suas narrativas longas, mas o romance mais equilibrado e efetivo é mesmo A paixão segundo G.H. (1964), tensa viagem em direção ao desconhecido íntimo, o famoso Unheimlich que Freud enunciou para outro caso: G.H. é uma mulher que precisa entrar no quarto da empregada, recém-despedida, para uma faxina que seria trivial, inclusive pelo fato de aparecer uma barata; mas esse encontro muda tudo, porque leva a protagonista a sumir no labirinto de suas fantasias, de onde sairá modificada pela redescoberta da vida.
            Em matéria de contos, a coletânea mais consistente é A legião estrangeira (1964), em que aparecem lado a lado as duras evocações da experiência infantil, que Clarice nunca barateou nem edulcorou, a irremediável solidão da vida adulta, terreno de sua predileção, e algumas experimentações de ritmo e linguagem que são características suas. As crônicas de A descoberta do mundo (edição póstuma, 1984) são um significativo material de jornal publicado entre 1967 e 1973, anos de grande turbulência que a autora acompanhou de perto, mas sempre de um ângulo peculiarmente seu: aparece até a vida social e política, mas nunca nos termos da disputa real direta. Vale muito conhecer também De corpo inteiro (1975), reunião de entrevistas e perfis que escreveu para revistas e que, vizinhando num volume, dão uma notícia de grande valor sobre o período de sua maturidade, sobre sua visão de mundo, sobre os variados artistas que ela desenhou.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 19/12/2007 - 09:23

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A HORA FINAL DA ESTRELA

 

            Trinta anos atrás Clarice Lispector se despedia da vida logo depois de lançar um livro singular no quadro geral de sua obra: A hora da estrela. A autora nem completou seus 57 anos; o livro fecha três décadas agora; e ambos demonstram fôlego para permanecer vivos no âmbito talvez mais relevante em matéria de literatura — o da leitura.
            Filha de família judia imigrante, Clarice nasceu em 1920, criou-se em cidades do Nordeste brasileiro e fez carreira no jornalismo e na literatura no Rio de Janeiro, então capital do país, para onde a família mudou quando ela era adolescente. Viveu a capital carioca em seu apogeu de cidade cosmopolita, culta, centro do poder político nacional e ainda sem a barbárie atual. Marcou desde a estréia a impressão da crítica e do leitor por traços raros no cenário da língua portuguesa: fez diminuir o valor do enredo e arredou para o fundo do palco o registro da vida social que foi a tônica da geração anterior à sua no romance, tudo isso em favor de uma elaboração mais sutil da linguagem, um empenho por imprimir na superfície do texto as tensões profundas dos personagens.      
            Assim foi desde 1943, quando apresentou-se no romance Perto do coração selvagem. Os melhores críticos perceberam que ali estava uma novidade relevante: mais do que a vida psicológica, colocada na berlinda com certa volúpia, ali se via uma tentativa de fazer a linguagem ser ela mesma um elemento de interesse para o leitor, que era convocado a aderir à ficção num patamar inédito para o Brasil. Chegou-se a dizer que para ler Clarice era preciso tornar-se Clarice, imagem exagerada que porém dá a medida do entusiasmo da entrega que aquele texto impunha. Depois apareceram contos e outros romances, além de crônicas e peculiares entrevistas veiculadas na imprensa, sempre com essa marca reconhecível. Clarice definiu seu público, e começou a fazer escola.
            Não quer dizer que sua literatura não tenha tido seus momentos de realismo chão; ocorre que não era nesse registro que sua realização alcançava o melhor. Em notável coerência, sua obra cresceu na medida em que aprofundou a pesquisa da linguagem em busca do inefável: Clarice queria que a revelação, a semiofania, acontecesse ali, diante dos olhos do leitor, por meio daquelas palavras que sua prosa ia dispondo ao longo de frases enganosamente lineares. Mais de uma vez conseguiu, é preciso dizer.
            Em 1977, quando já estavam no cenário os contistas da nova geração, liderados por Rubem Fonseca, cujo realismo forte se colocava a serviço do desenho da brutalidade real, Clarice apresentou A hora da estrela, paradoxal narrativa que mescla a melancólica autocrítica de um escritor lidando com os limites de sua capacidade de falar da vida real, de um lado, com o relato do discreto horror que é a vida de Macabéa, nordestina imigrada para o Rio, para as ilusões da cidade grande, para um amor gorado, para a inevitável morte final, narrada com a beleza de quem estivesse seguindo a lição de Eliot, para quem o mundo terminava não com um estouro mas com um suspiro.
            Clarice Lispector dá alimento para o leitor trivial, porque sua ficção se vale aqui e ali de traços autopiedosos fáceis; mas isso não apaga a força de seus acertos, que ocorrem especialmente quando sua literatura confronta os limites da representação do real vivido. “Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo”, diz o escritor que nos conta da vida de Macabéa, ecoando a ambígua convicção da autora, que queria a vida e a arte ao mesmo tempo, não antes, não menos.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 19/12/2007 - 09:23

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SOBRE CENTRALISMO

 

            Comecemos de modo leve e panorâmico: os países sul-americanos de língua espanhola se reconhecem em sua singularidade, em sua separação, mas também em sua base comum, naquilo que compartilham — a língua espanhola, que veio junto com a colonização, operada a partir de uma mesma metrópole, a Espanha. Argentinos sabem quem são e têm seus esquemas mentais para pensar nos mexicanos, nos chilenos, nos colombianos, nos cubanos; e assim reciprocamente, numa dimensão que se espalha, se não por todos, pela maioria dos países independentes hispano-americanos.
            Sabendo que são diversos, eles podem também usufruir um certo grau de compartilhamento de suas singularidades. De alguma forma, colombianos ganham em saber que são como são e que deram origem a um escritor como García Márquez e que, simultaneamente, podem ler e portanto aproveitar as experiências de outros países, como a Argentina (a Buenos Aires) de Borges, o México de Rulfo, e assim por diante. São países distintos unidos pela língua.
            O caso brasileiro, agora. A tradição centralista do Estado nacional brasileiro, herdeira do Estado português até mesmo na burocracia pequena e de grande poder, foi cevada igualmente pela determinação de manter a base de classe intocada, por um período que superou as maiores tolerâncias do século 19. Estamos falando da escravidão, claro, que garantiu parte importante da unidade nacional: mesmo em momentos de iminente ruptura de uma província rebelde com o centro imperial (de que a guerra dos Farrapos é exemplo eloqüente, no Rio Grande do Sul), os senhores de escravo do centro e da periferia preferiram abrir mão de posições antes tidas como inarredáveis em favor de manter o instituto da servidão intocado.
            Isso não explica tudo, mas ajuda a encaminhar o tema: foi esse centralismo a matriz mental, ideológica, política, mais propriamente epistemológica, da visão unitarista que a cultura brasileira construiu ao longo do tempo, desde o Romantismo até, especialmente, o Modernismo paulista. A história brasileira impôs, em proporção alta (e desconhecida em um país novo como os Estados Unidos), uma visão unitarista, que não acolheu a diferença regional como válida, e pelo contrário manteve-a à margem como indesejável. Isso foi assim no século 19, isso se reforçou (para não ficar pegando no pé dos paulistas a toda hora) num momento como o Estado Novo, quando, pela força do veículo modernizante que era o rádio, o samba carioca, em algumas de suas modalidades (o samba-crônica de Noel, mas também o samba-exaltação de Ary Barroso), se transformou na “cara do Brasil”, relegando a patamares subalternos outros gêneros musicais.
            Tivéssemos, os brasileiros, uma visão menos unitarista, menos impositiva, menos centralizada acerca de nosso país, poderíamos viver culturalmente usufruindo com mais gosto e eficácia o arquipélago cultural da língua portuguesa em nosso país. As diferenças poderiam ser vistas como isso mesmo, diferenças, mas tramadas na base de uma mesma língua, um passado comum, um destino compartilhado.
            Isso é idealsimo? Pois então vamos a uma dimensão materialista da coisa. A recente onda de liberalização da economia brasileira, começada por Collor e mantida por Fernando Henrique e por Lula, determinou, entre outras providências, que os estados deveriam desonerar as exportações; haveria uma compensação por esse buraco financeiro, na forma de uma transferência da União para os estados nessa situação — foi a famosa Lei Kandir. Na prática, os estados exportadores, entre os quais o Rio Grande do Sul, ficaram pendurados no pincel, porque a escada do ICMS foi retirada pelo governo central. O argumento de face era respeitável, não exportar imposto, que onera o produto final; na vida real diária, o argumento transformou-se num gesto unilateral de força.
            Não é a primeira, nem será a última vez que se estabelece conflito entre todo e parte. O Brasil viveu episódios notáveis nessa matéria, que valeriam a pena ser historiados em uma seqüência específica. (Por exemplo: na República Velha, as províncias puderam, entre outras coisas, taxar as exportações com impostos de abrangência estadual; adivinha qual o nome da província que mais se beneficiou dessa conjuntura? Um doce para quem acertar. Sim, foi a mesma província que teve renda sobrando até mesmo para inventar uma moderna universidade, incluindo um lote de professores importados diretamente da França.)
            Feitas as contas, hoje temos, no Rio Grande do Sul, uma situação crítica que em parte se explica por essa operação: fechada a torneira do ICMS sobre as exportações (couros, carnes, sapatos, soja, móveis, quase tudo que o estado produz de significativo), o antigo e agora saudoso welfare-state alcançado nos anos 1950, com uma previdência estadual exemplar e um sistema de ensino de dar gosto, ficou apenas na memória, e os sucessivos governos só podem é chorar as pitangas, sem expectativa de que elas revertam ao que foram alguma vez. Assim foi com os últimos governos: Britto teve caixa porque vendeu quase todo o patrimônio público; Olívio usou o caixa único do estado e pôde sobreviver; Rigotto tentou de tudo e não teve nada; e, agora, Ieda vê a situação destroçada e sem saída, e isso numa conjuntura, é bom lembrar, em que o Estado nacional contrata, leiloa, faz e acontece, com a economia aquecida e a inflação sob controle.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 19/12/2007 - 09:21

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O FILME É FASCISTA?

 

            Tem gente que interpreta o filme como uma apologia da truculência policial contra os pobres. Eu não acho assim, mesmo, do fundo do coração. Para mim, o filme é forte como é, para os setores esclarecidos como o nosso universo social de leitores de jornal, não por ser a favor da truculência, que ele não é — uma leitura das vidas em jogo mostra que a truculência é pelo menos problemática para os protagonistas, que porém são sim gente treinada para a porrada, como os militares em geral são, aliás —, mas por outro motivo, que me arrisco a apresentar aqui.
            Trata-se do seguinte: o personagem principal, o Nascimento (e com esse sobrenome, ainda), que é quem quer desistir do BOPE, que é o que vai ser papai pela primeira vez, que é o cara que tem suores e tremores por estresse violento, mas que também é o cara que tortura e manda torturar, que atira para matar em bandidos, que comanda o treinamento de candidatos ao BOPE com requintes de perversão militarista  e que é incorruptível e a favor da lei — esse cara, ao contrário do que poderíamos esperar e do gostaríamos de ver, é muitíssimo parecido com cada um de nós.
            Tivesse o filme pintado esse sujeito como um tarado mental, que cospe na mulher e pisa em cima da mãe, nós, espectadores, ficaríamos tranqüilos, porque ele seria um truculento que não saberia distinguir entre o trabalho (a “guerra” contra o tráfico e os pobres com ele envolvidos) e a vida fora dele (a família, o filho que vem, etc.). Mas não: ele é policial violento mas chega em casa e quer o carinho da mulher; mata mas quer um mundo melhor para seu filho.
            Ver um cara assim, tão próximo de nós, viver sua vida ambivalente e paradoxal diante de nossos olhos, é um perigo moral (e um acerto estético, pelo mesmo motivo), porque quem garante que nós, confrontados com os miseráveis e os bandidos, não seríamos capazes da mesma coisa que o capitão?

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 28/11/2007 - 16:05

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TROPA DE ELITE

 

            O filme me derrubou, devo admitir, e não paro de pensar sobre ele, indo e voltando entre a minha vida cotidiana e aquela história. Fui dos espectadores tardios, o que talvez tenha acentuado a sensação forte que ele causa: todo mundo já falava, propunha questões, e eu era dos únicos a não poder dizer nada, por desconhecê-lo solidamente. Agora, ele não me sai do pensamento.
            O senhor viu o filme, não viu? Tem que ver. Não pode perder. É daqueles casos em que o sucesso se justifica, como foram, em anos próximos, o Cidade de Deus, o Carandiru, e anos atrás o Pixote. Lembra deles, certo? É da mesma família: filme que conta para a classe média e para os de cima, com eficácia e força, a vida dos de baixo — antes era a vida dos pobres, dos desgarrados, dos condenados, e a agora é a vida dos mesmos protagonistas mas num mundo já dominado pela droga, com tráfico violento de um lado, consumo “para diversão” em outro, ONGs humanitárias funcionando na favela com autorização do chefão local da droga, e por dentro de tudo a polícia, corrupta até a alma, com exceção dos que torturam e resolvem a coisa pelo lado truculento, o BOPE, Batalhão de Operações Especiais. Uma combinação medonha, complexa e sem saída, igualzinha à da realidade.
            Tudo é narrado em “off” por um protagonista, o Capitão Nascimento, do BOPE, que conta a coisa de dentro: ele está em crise porque quer deixar o serviço naquele batalhão, o único. segundo o filme, não-corrupto, e o mais violento na abordagem. Por que ele quer sair? Não é totalmente articulada a coisa, em termos verbais, mas o caso é que o Capitão está para ter um filho, e algo lhe soa na cabeça como incompatível, entre o cotidiano da profissão e essa novidade. O espectador vai fazendo a conta e percebe que se trata da oposição entre a vida e a morte, simplesmente.
            Mas não vou reproduzir aqui o enredo do filme, que é muito bem tramado, com duas trajetórias paralelas sendo contadas — essa do capitão que quer sair do BOPE e a de dois jovens oficiais, amigos de infância, que querem entrar nele, sendo que um desses dois é (a) negro, (b) de origem humilde, (c) dedicado aos estudos de Direito em universidade de ponta no Rio de Janeiro, (d) incorruptível, (e) sensível às diferenças sociais a ponto de se envolver com um menino pobre com problema de visão e, pelo menos mais esse item, (f) charmoso a ponto de namorar a guria de elite que é sua colega de aula e presidente daquela ONG. O resultado é arrasador em vários sentidos.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 28/11/2007 - 16:04

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O TEXANO SEM PACIÊNCIA

 

            Piada já antiga, que me cativou assim que a ouvi pela primeira vez: um fazendeiro texano está em férias na Inglaterra. Passeia por tudo que pode, mas sua atenção vai principalmente para aspectos rurais, para a vida no campo, porque ele provém desse mundo.
            Para entender direito a história, vale lembrar que o Texas é uma espécie de São Paulo (ou talvez mais ainda uma espécie de Mato Grosso do Sul) para os Estados Unidos, isto é, um estado de grande progresso, baseado na produção primária, principalmente gado (e também no petróleo, ausente no caso brasileiro). É uma região mais ou menos selvagem, em sua história e no imaginário atual, terra de fazendeiros truculentos (é, é mais Mato Grosso do Sul, ou quem sabe Tocantins, do que São Paulo, definitivamente), terra natal da família Bush, paradigmática da mentalidade bronca, agressiva, pouco refinada, daquela terra.
            Em oposição a isso, a Inglaterra é a terra dos castelos, das propriedades vetustas, respeitáveis — quero dizer, assim parecem, porque não vou ser ingênuo a ponto de imaginar que as riquezas da velha ilha tenham sido geradas com menos força e brutalidade do que em outras partes; a diferença é na Inglaterra, e na Grã-Bretanha em geral, há o aspecto respeitável que só o tempo confere às coisas.
            Voltemos à piada, agora: está o fazendeiro texano, bronco e pragmático, passeando por um gramado daqueles que dá inveja a qualquer um, que num exagero se diz que dá vontade de cair de quatro e pastar, um gramado perfeito, parelho, lindo, estendido como um tapete. Admira o gramado, que fica nas redondezas de um castelo, e resolve procurar informação sobre como se procede para obter aquele efeito tão magnífico. Encontra ali adiante um jardineiro, inglês mesmo, como cabe a uma piada arquetípica como esta; chega perto e, com seu ar arrogante (já o imagino com cara vermelha, corpo gordo, voz mais alta do que recomendaria a urbanidade, aquele chapéu de caubói que os atuais paulistas adotaram como seu, nos rodeios e tudo o mais), pergunta como se faz pra ter aquele gramado.
            O jardineiro, discreto (mas provavelmente rindo por dentro), falando em tom baixo, responde que é muito simples: basta preparar o terreno, limpá-lo bem, depois abrir um pequeno buraco e nele depositar uma boa semente, comprada em qualquer local; depois, basta regar, cuidar, tratar, e em não mais que trezentos anos o gramado fica como aquele ali.
            A piada é bacana porque opõe os dois clichês, o do americano texano, de temperamento burguês, sem refinamento e imediatista, e o do inglês culto, elegante, de temperamento digamos aristocrático, com noção da história. E deixa claro que a superioridade é do inglês, que talvez ria por dentro ao ver o atarantamento do rico texano e sua trivialidade mental, que acha que pode comprar tudo a qualquer hora. Não pode, justamente, é comprar a história, o processo, a lenta acumulação da experiência, em finas camadas que o tempo, e só ele, vai consolidando.
            Sempre me lembro dessa história quando se trata de comentar a educação, o ensino e a aprendizagem, e também a tarefa do professor em tudo isso, mas também o lado do aluno. Não tem como comprar uma educação de boa qualidade; para ela acontecer, é necessário, é vital que haja tempo, sedimentação, processamento da experiência. Quatrocentos anos não digo, mas certamente uma vida, ou até mais de uma, a vida de duas ou mais gerações, precisam transcorrer, para que se veja uma educação requintada, complexa.
            É também por isso que para os governantes políticos, que vivem com um calendário de 4 anos como paradigma, é talvez impossível entender o valor de relações estáveis na escola, de infraestrutura adequada, de biblioteca decente, de bom salário para professor. Essas coisas são imprescindíveis para uma boa educação, e nem assim são suficientes: elas precisam existir e continuar existindo, por mais de uma geração, para que a educação aconteça.
            O contrário disso, as más condições, o aviltamento do salário, a biblioteca chinfrim com são todas as bibliotecas escolares entre nós (assim são também as universitárias, lamentavelmente), tudo isso interrompe o ciclo virtuoso da boa educação. E é uma quebra que mais atrasa a realização das virtudes da educação. Queremos o quê, em termos sociais, se nem isso proporcionamos à população?
            Sei, algum pragmático ultraliberal, um texano metafórico, vai me dizer que nem isso basta, porque há países que oferecem boas condições e mesmo assim há violência social e tudo o mais. Sim, respondo eu, é verdade que a boa educação não resolve tudo; mas é mais certo ainda que sem ela não solucionamos nada.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 21/11/2007 - 16:26

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SÃO PAULO, 2084

 

            A literatura em língua portuguesa não é pródiga em exercícios de futurologia, bem ao contrário da inglesa — sem recuar a Thomas More e sua Utopia, lembremos Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, 1984,de George Orwell, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. O futuro esteve presente na imaginação desses escritores como um elemento vivo. E nós, no dito país do futuro, por que não pensamos nisso por escrito? Faltam motivos?

            Não faltam, e a prova está na novela Diário da guerra de São Paulo, que Fernando Bonassi traz à luz agora, na coleção “Cidades Visíveis”, da Publifolha. O autor é dos melhores da safra que agora amadurece, tendo já passado em vários testes relevantes. Agora, corre numa pista nova, a das utopias, ou distopias. E o resultado, neste livro, fica abaixo de sua própria média.
            A narrativa claramente deseja um leitor jovem, talvez escolar, pelo desenho do protagonista e narrador, um rapaz que escreve um diário. O cenário é a megacidade de nosso futuro, daqui a algum tempo; e o que o livro imagina é aterrador: não há mais governo na cidade, aliás “ex-cidade”, ao mesmo tempo o inferno e o limite da experiência.
            Hordas de crianças assassinas tomam conta das ruas; há chuva ácida e variações de temperatura da ordem dos 70 graus centígrados todo dia; a comida é pouca e inconfiável, a água imunda e problemática; as redes de informação, incluindo a internet, funcionam aleatoriamente; os poucos adultos se escondem, de medo, e anseiam ser resgatados por algum parente remoto; não há qualquer sinal de futuro, e pior, o passado é apenas um vago conjunto de suposições — o narrador ouve falar, por exemplo, da antiga existência de um sentimento chamado amizade, que fazia uma pessoa confiar em outra, o que passou a ser impossível.
            A exemplo da clássica narrativa de Orwell, Bonassi também faz seu personagem ser um desviante, começando pela redação do referido diário, o que já o transforma em um sujeito de exceção por acreditar neste tipo de conhecimento (e autoconhecimento), seguindo por sua inquietação de alma (apesar de ser meio amorfo de sentimentos, ele quer entender as coisas, não as aceita simplesmente com são, ao contrário de quase todo mundo) e concluindo pela decisiva experiência de um enamoramento, que faz nosso jovem herói querer muito sobreviver, quando atravessa os escombros daquele amontoado infernal que é, era, a cidade. Também a exemplo do autor de 1984, Bonassi paga um alto preço por manejar um personagem muito previsível, incapaz de surpreender, submetido que está aos fins ideológicos da novela: nos dois casos, o leitor acompanha a história menos por estar aderido emocionalmente ao personagem, ao enredo, à linguagem, e mais por querer saber do destino político e ideológico ideado pelo autor.
            As melhores cenas e passagens, exatamente como em Orwell, são marcadas pelo sarcasmo. Não se pode deixar de rir, com melancolia e autocrítica, ao ler relatdos que mostram que as facções de crianças bandidas começaram a agir impunemente numa remota época em que os adultos estavam ocupados com os sistemas de segurança e com os sites de fofocas de famosos — a percepção imediata é de que o nosso tempo atual é mesmo marcado por essas esquisitices e frivolidades —; não se pode deixar de amargar nossa lamentável incapacidade atual de enfrentar o vandalismo, a falta de escola decente, a inexistência de saúde pública, ao ler a cena em que um professor, um sobrevivente professor de Filosofia, faz uma longa preleção defendendo o “nadismo”, um antigo modo de pensar, que faz a apologia da inação. Aliás, o último governo da cidade, antes de ela virar o horror que a novela apresenta foi nadista: acreditou que o melhor era não fazer nada. Como tantos outros governos que conhecemos.
            Enfim, leitura legal, mas não uma obra-prima. Bonassi podia ter ido mais fundo e mais longe em sua utopia negativa.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 15/11/2007 - 19:42

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SARAU E CHUVA NA FEIRA

   Eis que chego em casa depois de mais um sarau nosso, desta vez realizado no estande que o SESC e a TVE compartilharam, em plena Feira do Livro, ali diante da cara do cavalo do Osório. Sabe onde é, né? Ali. Chovia regularmente, embora pouco, e resultou que o plano de fazer ao ar livre dançou, e fizemos nossos números dentro do estande, coisa pequena, para umas quinze pessoas, mais umas quinze diante do estande, ouvindo por umas caixinhas de som.

   No fim deu tudo certo, mesmo porque nós estamos ficando bons nessa de fazer o nosso sarauzito. Esses dias fizemos um na Reitoria da UFRGS, com dois convidados supimpas, o Paulo Neves e o Antônio Cícero, e o Fernando Pezão, notável baterista da redondeza e gente fina reconhecido, me disse, ao final: "Cara, vocês são uma banda". Isso, vindo de quem é do metiê das bandas, é um enorme elogio. "Vocês recebem convidados, deixam ele solar, depois retomam a conversa entre vocês, e tudo rola bem."

   Tô começando a achar que estamos mesmo ficando bons nisso, depois de 8 anos de estrada.

 


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 10/11/2007 - 21:12

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LER, FAZER SENTIDO
            Vou citar uma frase que nem sei se foi mesmo escrita por aquele que me consta ter sido seu autor. E como é que eu acho que ele é o autor? Porque uma vez anotei a frase e o nome dele, num caderno (eu sempre tenho à mão um caderno, sempre de capa dura, que até pouco tempo era sempre da antiga livraria Globo mas que agora acabou, para sempre), e de vez em quando lembro a frase e seu suposto autor. Agora, mais uma vez.
            O autor é, ou talvez seja, Augusto Meyer; a frase: “Os livros, assim como as paisagens, só falam quando são interrogados”. E só aí já temos uma grande equação, que merece desdobramentos.
            Augusto Meyer foi um porto-alegrense que na juventude foi poeta e na maturidade preferiu ser ensaísta, especificamente comentador de literatura. Lia em várias línguas, principalmente no alemão, sua língua familiar. De seu círculo de sangue fazia parte um tio que ficou relativamente famoso, o professor Emílio Meyer, sobre quem há histórias notáveis, uma das quais, contada por Vivaldo Coaracy em suas memórias, relata que ele costumava ir a pé — note bem, a pé — para o litoral, todos os verões, como forma de espairecer, de conhecer a natureza, para espantar sabe-se lá que males (especulo eu). Coisa de alemão, naturalista, interessado em conviver bem com a natureza, tal como ocorreu com Röessler e Lutzemberger, entre nós.
            Augusto nasceu em 1902, no bairro Floresta, que se caracterizou por abrigar justamente descendentes de alemães, mas os de classe média, porque os da alta ficavam no Moinhos de Vento, bairro vizinho (e morro acima em relação à Floresta), e os da baixa ocuparam bairros como São Geraldo, São João e arredores, tudo na parte norte do centro da capital. Fez parte da geração modernista em Porto Alegre, junto com gente apreciável e lamentavelmente esquecida, como Athos Damasceno Ferreira, Theodemiro Tostes, Ernani Fornari e tantos outros, uma turma de quem só temos notícia, mesmo, a partir da glória (tardia, é bom lembrar) de Mario Quintana, que compartilhava o chope com eles, no Chalé da Praça XV, entre outras paragens.
            Depois, Meyer entrou para o serviço público, na área de gestão cultural: dirigiu a Biblioteca Pública da capital, posto que equivalia, mais ou menos, ao de secretário de cultura atual, em importância simbólica. Em 1937 subiu para o Rio de Janeiro, com muitos outros gaúchos, intelectuais ou não, no bafo quente do getulismo, que dominava a cena. Ele criou e dirigiu o Instituto Nacional do Livro, que por décadas fez um trabalho bem apreciável pela cultura letrada do país. Morreu em 1970, membro da Academia e com uma penca de livros publicados, mais de ensaio que de poesia.
            E a frase? Sei lá onde foi que ele a escreveu, se é que a escreveu. Agora mesmo está sendo reeditada uma coletânea de textos ensaísticos dele, Ensaios escolhidos, com organização de Alberto da Costa e Silva (Editora José Olympio e Academia Brasileira de Letras), e tanto quanto eu tenha visto não consta em parte alguma a frase, não obstante o livro trazer alguns belos ensaios, em particular sobre Dostoiévski e Machado de Assis, autores de sua predileção, sobre quem escreveu textos de grande interesse e entre os quais encontrou inusitados (mas relevantes) parentescos.
            A frase, porém, é o meu problema atual: “Os livros, assim como as paisagens, só falam quando são interrogados”. Isso quer dizer muita coisa. Começa que iguala livro e paisagem, talvez, por que não, numa influência do tio professor e caminhador, igualdade que dá o que pensar. A gente olha uma paisagem, qualquer que seja, e ela fica ali, esperando que o nosso olhar construa sentido. Ela, por si mesma, não pensa nada, não faz sentido diretamente; mas se a gente fixar, por exemplo, um de seus elementos — digamos, a árvore mais alta, ou uma touceira de capim seco, um galho que se destaca —, logo o resto todo começa a se ajeitar, a ganhar postos diferenciados em uma hierarquia que só nós enxergamos, ali, na hora.
            Assim os livros. Eles, sozinhos, falam alguma coisa? Não. Ponto número zero: precisam do leitor, ali, na hora, pra começar a fazer sentido. Ponto número um: precisam do leitor ativamente ligado na tarefa de ler, porque a mera decodificação do código escrito não constrói sentido relevante. Ponto número dois, e último: precisam do leitor que vai, em seu interior, sem ninguém outro para impor ritmo ou restrição, ligar informações, sensações, memórias, afetos, tudo isso e muito mais, e assim exercer sua prerrogativa humana de pensar construindo sentido.
            Talvez até haja livros que praticamente dispensam a atividade do leitor. São aqueles que nos tratam como estúpidos, repetidores, meros acompanhantes passivos de histórias que acontecem apenas lá longe, no enredo. Esses são livros que não precisam ser interrogados para fazerem sentido significativo, porque tratam o leitor como um mero consumidor — são os best-sellers planejados, os livros de auto-ajuda que rebaixam o horizonte dos leitores em vez de empurrá-lo para mais adiante, os manuais de uso triviais.
            Mas os grandes livros, pode ter certeza, precisam da interrogação, que só o leitor pode fazer. São esses valem a pena; é esse que merece ser cultivado.

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 07/11/2007 - 23:25

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GIGANTE

Alô, colorados do Brasil e de qualquer parte do mundo: estréia dia 9 (com pré-estréia hoje) o filme "Gigante - Como o Inter conquistou o mundo", filme que eu ajudei a fazer, com um modesto roteiro. O mérito mesmo vai para o Gustavo Spolidoro, o diretor, e o Giba Assis Brasil, o montador, que são bambas no lance. Pra mim, a experiência serviu para várias coisas, a começar pelo grande lance de ter me ajudado a esclarecer o meu amor pelo time de vermelho. Nada vai nos separar...


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 06/11/2007 - 10:45

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Beleza e horror

   Eu vim bem belo aqui pro blog do Sarau pra contar como foi bacana a nossa performance ontem, no auditório Sancho Pança (o lugar é uma improvisão ok que já dura uns bons anos, em um dos armazéns centrais do Cais do Porto, durante a Feira do Livro), quando fui ler o blog da festejadíssima Cláudia Tajes, matéria central do caderno Donna, da Zero Hora, e me deparei com o relato de um -- mais um -- assalto covarde, canalha, filho-da-puta, nem sei como mais dizer. Levaram o carro e tudo que tinha dentro, até mesmo 4 benditos pãezinhos que ela ia saborear com o filhão, no retorno pra casa. É uma merda que não tem tamanho. Eu passei por isso, três anos atrás, e bá.

   Então é o seguinte: fomos bem ontem, como temos ido em geral, ainda mais com a participação da mais nova membra (ui) do Sarau Elétrico, a notável, bem-humorada, gentil, competente e talentosa -- e neo-assaltada -- Cláudia Tajes. Mas ela tá bem e a vida segue.

   E tem sarau na terça, no Ocidente de novo, com um tema tri bom. Dá uma conferida. E não vamos esmorecer, ni jodiendo, como dizem os castelhanos da vizinhança.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 04/11/2007 - 10:33

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Lembrando o Prego

   Meu irmão, o Prego, de batismo Sérgio, morreu este ano, em maio, depois de uma agonia que durou duas semanas, no fim de um câncer feroz, maldito, impiedoso. Ele era muito jovem pra morrer, tinha só 42 anos, e faz muita falta, mais para o Alfredinho, seu filho, do que para qualquer outra pessoa. Mas pra nós, irmãos, familiares, amigos, também é grande a saudade.

   Não sei ainda como acomodar dentro de mim essa perda. Lembro dele todos os dias, porque não tem cabimento esquecer. De vez em quando me pego comentando imaginariamente com ele alguma coisa. Ontem, por exemplo, o Colorado jogando mal como jogou, lembrei dele tantas vezes: ou a gente teria assistido junto o jogo, ou teríamos nos telefonado depois, ou hoje, enfim, almoçaríamos juntos e ele diria alguma coisa espirituosa, sarcástica e ao mesmo tempo doce sobre o que aconteceu. Que falta ruim de sentir, essa.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 02/11/2007 - 11:17

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SÃO PAULO, MEU TORMENTO
            Estive em São Paulo no começo da semana, a serviço, para participar de um júri, na fundação Itaú Cultural. Eles organizaram um concurso nacional em várias modalidades, entre as quais Jornalismo Cultural e Crítica Literária; eu estive avaliando trabalhos desta última área. Foi legal, parceria boa, mas não era sobre isso que eu queria falar aqui, e sim sobre a cidade, que sempre me deixa em estado de reflexão.
            Um dos motivos, evidentemente, é que eu me sinto meio perdido cada vez que vou pra lá. Em outras cidades grandes também, é preciso dizer, porque no fundo eu sou meio caipira, alguém que prefere cidades relativamente menores, como Porto Alegre — que por certo me parece familiar porque eu vivo aqui desde o primeiro ano de minha vida, o que a torna conhecida, de algum modo, mesmo em partes que eu nunca freqüentei.
            Assim também o ritmo e o tamanho de São Paulo. Prédio, lá, tem sempre mais de vinte andares, pelo menos aqueles construídos nos últimos dez anos. E para onde se olhe, até onde a vista alcança, é só aquele mar de prédios altos, fugindo do chão, dando vertigem. E o ritmo? Gente, carro, zoeira, a cidade me dá a sensação de que vibra o tempo todo, fisicamente falando.
            Mas tem outra razão, mais sutil, para eu ficar em estado de alerta. É que aquela grande cidade brasileira, que manda em nós (na política, na economia, na vida mental, na vida universitária, etc.), me dá a sensação contraditória de ser a maior totalidade possível, como lugar em que tudo acontece, e de ser ao mesmo tempo um bloqueio à compreensão total das coisas, por ser uma aglomeração rigorosamente inconhecível.
            Não sei se me explico, e talvez não, mas é por aí: tenho a sensação de que quem mora lá não se pensa como morador de uma cidade, e sim como um sujeito que só tem interesse em meia dúzia de lugares, instituições, pessoas, não mais. Conheço algumas figuras lá que são mesmo felizes por morarem onde moram, e que me dizem que não sabem dizer como é que é viver em São Paulo, mas sim como é que é viver em seu bairro, em sua vizinhança. Quem vive numa parte razoável, como era o lugar em que eu estive hospedado, e além disso pode se locomover para um lugar de trabalho igualmente bacana, não tem do que se queixar.
            Já nas cidades menos grandes, como as que me tocam conhecer mais de perto, ainda que a gente também freqüente apenas determinadas partes delas, tenho a sensação de que nos ocorre um sentimento da totalidade: qualquer parte da cidade nos diz respeito, qualquer um, mesmo os que a gente não trilha habitualmente.
            Ou eu estou exagerando, e tudo isso ocorre em qualquer parte, independentemente do tamanho da ajuntação de gente?

Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 31/10/2007 - 16:13

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Back home e novo Sarau

Nós de novo, eu de volta em casa, vendo de novo a cara do meu filho, quer dizer, tudo certo. Não sei como foi ontem o lance das bruxas, mas hoje tem outro sarauzito, desta vez no Salão de Atos da UFRGS. Só por ouvir o Paulo Neves e o Antônio Cícero já vai valer a pena, pode crer. Eu vou levar umas letras bem velhas, mesmo, tipo segunda metade do século 19, e outras do grande Noel Rosa, que chegou lá, quer dizer, conseguiu fazer a canção tornar-se veículo/suporte/linguagem capaz de falar de tudo, de qualquer coisa, de temas complexos e temas banais, sem perder o tom, como a famosa Chiquita Bacana, que por sinal é uma marchinha de carnaval composta por um amigo do Noel, o Braguinha, com letra do Alberto Ribeiro. Essas coisas todas.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 31/10/2007 - 11:30

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Em Sumpaulo

   Eu nao curto muito vir pra capital paulista, e volta e meia ando por aqui. Fazer o que, ne? (E tudo sem acento, porque estou usando o velho laptop da familia, e eu nao sei botar os acentos neste teclado). Estou aqui para uma reuniao do juri de um concurso de critica literaria, veja so. Tem proposta legal, e vamos ver o que rola.

   Em compensacao mais pra baixo, o Colorado perde para o Parana, que Jesus ta chamando ha horas... Como e que foi o jogo? Deu apagao de novo?

   Ah, como e duro ser colorado nessas horas.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 28/10/2007 - 21:49

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Sarau extra

Na quarta que vem, 8 da noite, tem Sarau especial dentro do projeto Unimúsica, da UFRGS. Nós vamos estar estando, como se diz hoje em dia, no Salão de Atos da UFRGS junto com dois poetas e letristas, Paulo Neves e Antônio Cícero. E a canja vai ser do Nico Nicolaievski. O tema é Letras de Canções.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 27/10/2007 - 16:24

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Lançamento fresquinho

Aí, pessoal: a Julia e eu estaremos autografando amanhã, sábado, 19 horas, este livrinho cuja capa aqui aparece, se tudo tiver dado certo nessa apertação de botão e uploads. Apareçam lá, se der no jeito.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 26/10/2007 - 16:42

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ASSOBIAR A TESE

            Poucas pessoas conhecem o Aníbal Damasceno Ferreira como o Flávio Oliveira, personagem que está se tornando obrigatório nesta coluna. Já disse e repito: o Flávio é compositor, com um currículo largo, e está morando em Estância Velha, motivo pelo qual é leitor do nosso jornal sempre. O Aníbal é outra figura da melhor qualidade: jornalista, radialista, professor de cinema na PUC por anos a fio, foi um dos caras decisivos, junto com o Flávio, em uma parte central da história da Rádio da Universidade, da UFRGS, que foi um dos respiradouros da cultura mais exigente durante muito tempo, dos anos 50 aos 70.

            Mas eu estou dispersando e preciso concentrar a conversa. Ocorre que o Aníbal tem outras marcas em sua longa trajetória; uma delas é o de haver sido o principal responsável pelo renascimento de Qorpo-Santo, o genial maluco que na altura de 1860 escreveu umas peças de teatro de grande inventividade, peças que foram levadas ao palco apenas um século depois, em 1966 — e quando o foram, tiveram a luxuosa companhia da música feita pelo Flávio. Aníbal foi decisivo porque, ainda nos anos 1950, copiou textos de Qorpo-Santo, repassou para várias pessoas, incentivou a montagem das peças, divulgou, enfim, fez o serviço de apresentar o autor para uma geração que simplesmente o ignorava. Só por aí o leitor já vê que, ao falar do Aníbal e do Flávio, estamos lidando com gente de primeira grandeza.

            Para nossos fins agora, nesta singela coluna dominical, o que importa é uma historinha exemplar ocorrida com os dois, que me foi contada pelo Aníbal. (Aí, Flávio: se eu estiver cometendo alguma imprecisão me fala!) Ocorreu que o Flávio, certo dia, resolveu mostrar uma composição sua, ao piano, para o amigo Aníbal.

            Dados decisivos desse momento: primeiro, que as composições do Flávio são para orquestra, de vez em quando para voz também, mas sempre operando no plano da música chamada de erudita, e mais ainda, erudita moderna, aquela informada pelas grandes mudanças havidas na primeira metade do século 20, atonalismo, dodecafonismo, politonalismo e sabe-se lá mais o quê. Isso quer dizer que, com o Flávio, nada daquela trivialidade de musiquinha banal, que possa virar um hit da indústria cultural; com ele, a criação é inventiva, exigente, desacomodadora. O outro lado, o segundo, é que o Aníbal não é exatamente versado nesse mundo da música moderna para orquestra, tendo ao contrário uma vivência mais parecida com os mortais comuns, que apreciam música dessas que tocam no rádio. No fim das contas ele não tem muita intimidade com música, em sentido amplo. O lance dele é literatura e cinema.

            Aí o Flávio vai e mostra uma composição sua para o Aníbal. Este ouve aquela sucessão de sons meio estranha, melodia surpreendente, ritmo idem, tudo de acordo com o figurino moderno erudito, inventivo e tal; ouve e fica ali, antenado, mas com cara de paisagem, ou pior ainda, com cara de quem não estivesse entendendo bem o lance. O Flávio termina a execução e pergunta para o amigo: “Que tal, Aníbal?” Não queria um comentário técnico, mas uma impressão do amigo. E o Aníbal, após breve hesitação, diz: “É legal, Flávio, mas tem um problema: não dá pra assobiar”.

            Essa pequena história é exemplar em mais de um sentido, e por isso eu lembro dela várias vezes. Especialmente quando eu estou conversando com algum orientando ou candidato à minha orientação, na faculdade. Como se sabe, trata-se de uma relação em que pode haver muita mistificação, mas também pode rolar uma troca interessantíssima de experiências; eu naturalmente tento praticar a segunda alternativa.

            Mas ocorre muitas vezes que o orientando, ou candidato a, tem uma proposta de trabalho, uma hipótese de pesquisa, que é toda intrincada, cheia de aspectos centrais e laterais, um labirinto de referências, uma barafunda mesmo. E não é raro que tal proposta venha apoiada em teorias disparatadas, ou apenas vagamente relacionadas; da mesma forma, o objeto de trabalho do sujeito é muitas vezes uma colagem de coisas as mais variadas, romances com contos com ensaios e assim por diante. Um inferno, uma confusão. E mesmo quando as propostas se ocupam de objetos mais singelos e têm abordagem teórica mais específica, não é incomum que o orientando descreva sua pretensão de modo obscuro, cifrado, cheio de voltinhas.

            Quando eu ouço um relato de proposta assim — o que ocorre quase sempre com quem começa a fazer uma pesquisa de pós-graduação —, sempre me lembro do episódio do Aníbal e do Flávio Oliveira. Eu ouço o relato, pacientemente, mas lá pelas tantas eu conto a historinha e, depois de chegar ao fim, eu peço: “Tu consegues assobiar a tua proposta?” Em caso positivo, isto é, se o cara consegue contar em uma frase clara e direta o que ele pretente, é sinal que a coisa está madura e vai dar bons frutos, porque para além dos detalhes ele consegue ver o centro, o âmago, a alma do projeto. Saber assobiar a tese, eis a questão.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 26/10/2007 - 15:39

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Eu bem que queria

    O seguinte: eu ainda estou aprendendo a mexer nesse lance aqui -- como a Claudinha, e muito pior que ela, eu não tenho intimidade com tanta tecnologia. Ainda vou botar aqui fotos, imagens, coisas impressionantes, pelo menos para mim. Como por exemplo a capa do livro que minha patroa, a Julia, e eu escrevemos, que se chama Porto Alegre, capital dos gaúchos. É um livro para crianças, tipo 8 ou 9 anos de idade, com ilustrações lindas do Jorge Hermann. Vai ter autógrafo neste sábado, quer dizer amanhã, 19 horas, num lugar que não é o Pavilhão dos Autógrafos, porque se trata de livro para crianças. É da Cortez Editores.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 26/10/2007 - 10:54

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O Nei tava tri

    O negócio é que o Nei é tri, mesmo. Ele tem umas crônicas nesse livro dele (É foch!, se chama, da L&PM) que são uma beleza, especialmente a última, que é uma longa reminiscência do irmão, um dos "desaparecidos" da ditadura. Ele não leu esse, no Sarau, mas nem precisava, porque as outras, que ele leu e nós lemos, deram um panorama bacana. E fala a verdade: sou só eu que vejo nele uma encarnação do Paul Simon entre nós? Ok, o Simon fala de Nova York; mas o Nei fala de uma outra grande metrópole, esta aqui. É ou não é?


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 25/10/2007 - 19:14

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Nós e o Nei

    Hoje tem Nei Lisboa no Sarau, o que é um acontecimento. Ele já foi outras vezes, portanto não se trata de ineditismo; o que vale mesmo é a qualidade do cara. Quero contar uma coisa sobre ele, para esquentar o interesse do prezado leitor: o Nei é um dos responsáveis por eu ter podido escrever o meu Dicionário de Porto-alegrês, por sinal agora em nova edição, em "pocket" da L&PM.

    Foi assim: o Nei uma época andava meio de cara com a carreira de compositor e cantor. Mil problemas, incluindo uma tragédia pessoal relacionada a ela, à carreira. Sei que em certo momento aparece o Nei como um cara que entendia tudo de computador, naqueles anos em que o bicho mal começava a fazer parte da vida de gente comum, da classe média. E ele entendia mesmo. Até hoje, por sinal. Ele sabia mexer com as coisas mais evidentes, aquelas que todo mundo aprendeu, nos anos seguintes (tipo usar os recursos dos programas como o Word e o Excel), e também com as coisas mais sutis -- ele sabia programar coisas, gravar macros, como era o jargão, se não me engano.

    E ocorreu que o Nei trabalhou uma época, um ano ou pouco mais, na Coordenação do Livro e Literatura, da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, no governo Tarso (entre 93 e 96), coordenação que eu exercia, naquele então. Poderia dizer, me gabando, que o Nei já atendeu a minhas ordens, mas não é verdade, claro. Foi uma convivência que só me enriqueceu, por tudo. E o caso é que naquele período eu cevei, desenvolvi e finalmente encontrei o formato para o meu dicionário.

    Aí entra o Nei: conversei com ele, que se entusiasmou com o lance, e se dispôs e fazer uma programação que me permitisse registrar os meus verbetes. E fez mesmo. E deu certo, totalmente certo. Isso quer dizer que o Nei é o cara também em computador. E quer dizer que eu devo um tanto do meu querido livro ao trabalho dele.

    Vai um abraço, Nei. De noite nos vemos.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 23/10/2007 - 10:53

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TAMBÉM PASSA

            Historinha chinesa, ou japonesa, em todo caso oriental. Um rei (isso em caso de haverem reis naquela parte, nos tempos remotos em que esta história ocorreu) conhece um filósofo, um verdadeiro mestre, daqueles sábios totais, capazes de ajudar com sua experiência e sua sabedoria a qualquer um. O rei, que é muito justo e inteligente, hospeda o sábio em seu castelo; convive com ele um tempo. Fica feliz com essa experiência, porque o sujeito o acompanha em vários casos e o ajuda a esclarecer a cabeça e o coração na hora de tomar as decisões que precisa tomar, como todo governante.

            Mas um dia o filósofo anuncia que vai embora. O rei tenta mantê-lo por perto, e oferece o que for necessário para o sábio permanecer. Mas não tem jeito; ele está decidido a ir adiante, em sua busca, em sua peregrinação, em sua trajetória. Lembrando da enorme importância que o sábio havia alcançado para a vida do reino, de todos os grandes conselhos dados em momentos críticos, o rei fica desolado.

            Percebendo isso, o filósofo prepara uma mensagem para deixar ao rei. Escreve num pequeno papel, dobra-o bem e o coloca em uma pequena caixa de madeira, sem qualquer trava, cola, presilha — apenas uma pequena caixa, que pode ser aberta a qualquer hora. E vai ao encontro do rei, para a despedida.

            O governante está ali, desconsolado; o filósofo entra, faz a reverência cabível e, estendendo a mão em que traz a caixinha, diz: “Aqui está um conselho que te deixo, para uma ocasião de extrema necessidade. Mas olhe bem, caro rei, não é para qualquer momento de necessidade — abra a caixa apenas naquele momento em que nada mais oferecer perspectiva, em que o mundo realmente pareça não ter mais saída; nessa hora, abra esta caixa, que eu estarei com essas palavras dando uma palavra de conselho”. Dá a caixa ao rei, que a recebe quase consolado, e sai.

            Passam-se os dias, a vida segue; o filósofo vivendo lá não sei onde, o rei em seu reino. E como sempre acontece na vida de qualquer reino, real ou fictício, problemas acontecem. Sempre que pinta qualquer coisa de ruim, de problemático, de enigmático, o rei lembra do filósofo e, em seguida, da caixinha, onde está aquele conselho amigo que por certo resolveria a questão, abriria a percepção para discernir o melhor caminho. Mas o rei lembra, igualmente, que era apenas em caso totalmente extremo que caberia desvendar o conteúdo do papelzinho.

            O primeiro grande problema é uma seca devastadora, que aterroriza a população, seca a plantação, reduz a comida, zera a arrecadação do palácio. O rei pensa seriamente em consultar a caixinha, mas considera todas as variáveis, lembra de outras secas, e chega a uma conclusão: “Isso vai passar”. E assim acontece: um tempo depois as chuvas voltam, volta a plantação, a fome cessa, e a coisa retoma a normalidade.

            O segundo caso foi uma invasão da parte norte do reino por um povo vizinho feroz e insaciável. Aldeias são saqueadas, gente é morta, perde-se muita coisa. O rei reage, animando seus exércitos, indo até a região para pessoalmente dar mostras de seu empenho. Leva junto a caixinha, para talvez abrir, mas passa-se uma semana de batalhas e já os inimigos perdem capacidade de agressão, e em seguida retornam a sua terra, deixando o reino. E a caixinha não foi aberta, porque o rei, sabiamente, pensou, pensando com calma: “Isso passa”.

            Mas aí vem uma peste terrível, impossível de enfrentar; morrem centenas de súditos, e depois milhares, e a tudo isso o rei acompanhava com grande dor; parentes do rei adoecem, alguns chegar a morrer; depois um filho do rei aparece com febre e, em algumas semanas mais, morre. Todos sabem que é a pior dor que alguém pode ter, a de ver um filho morrer. Nessa hora o rei perdeu completamente o rumo, desanimou de modo apavorante, cogitou até mesmo matar-se. Aí, num relance, lembrou da caixinha e do conselho do sábio, do grande filósofo que o havia acompanhado por algum tempo, anos antes.

            Foi até a caixinha certo de que aquele era o momento para abri-la, porque nada de pior poderia haver, nenhuma outra situação seria tão apropriada para finalmente saber qual era a sabedoria escrita pelo amigo ausente. Abre a caixa, desdobra o papel, e ali vê escrita uma singela frase, uma sábia frase: “Também isso passa”.

            E não é mesmo? Passa. Pode doer infinitamente, como no meu caso a perda de meu irmão, o Sérgio "Prego", mais novo que eu quase sete anos, o caçula dos irmãos, meio filho de todo mundo lá em casa. Nem meio ano faz, mas de algum modo é preciso aprender que a vida permanece, que aqueles que perdemos, mediante nosso esforço, se tornarão eternos em nossa lembrança, em nosso afeto.


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 19/10/2007 - 10:37

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Chegando de novo

Alô, macacada! Desta vez vamos, como dizia aquele velho político.

Agora com tecnologia nova isso aqui vai ser um arraso.

E eu começo por esta pequena nota de aviso, pra ver se os gansos se alertam.

Abraço geral,

LAF


Postado por: Luís Augusto Fischer
Postado em 19/10/2007 - 10:27

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